Pré-esrtréia do filme "Tudo que é sólido": uma bomba.
A priemiere do filme "Tudo que é sólido", ocorrida no dia 11 de maio de 2026, nas dependências do Cine Itaúna foi um bomba. Há filmes que contam uma história, outros procuram capturar um estado de espírito, "Tudo que é Sólido", de Márcio Heleno Soares, pertence à segunda categoria. Sua narrativa parte de um conflito concreto, atemporal: o envolvimento amoroso entre dois jovens de meios sociais distintos. Apesar da aparente recorrência o tema inova ao explorar o entorno dessa relação. O título do filme funciona como uma chave de leitura. A ideia do sólido remete àquilo que resiste ao tempo, ao que oferece segurança e permanência. No entanto, a obra se dedica justamente a questionar essa aparente firmeza. As relações familiares, os códigos de lealdade, as estruturas de poder e até os afetos mais íntimos são colocados à prova. O que parecia inabalável se fragmenta diante das pressões sociais e da violência que atravessa o cotidiano dos personagens.
Nesse contexto, o amor não surge como uma força redentora, mas como um elemento desestabilizador. O sentimento que aproxima os protagonistas não os protege do mundo ao redor; pelo contrário, expõe ainda mais suas vulnerabilidades. A relação entre eles desencadeia conflitos que revelam a lógica brutal de um ambiente em que o poder se sustenta pelo medo e pela imposição da força. O romance, portanto, não é um refúgio, mas um ponto de ruptura.
Um dos maiores méritos do filme está em sua relação com o território. Ao situar a narrativa no interior de Minas Gerais, a obra escapa de representações genéricas e constrói uma identidade visual e cultural própria. As ruas, os bairros e as paisagens não servem apenas como cenário. Eles participam ativamente da narrativa, moldando comportamentos, delimitando oportunidades e reforçando a sensação de pertencimento — ou de exclusão. O espaço físico adquire uma dimensão dramática, tornando-se quase um personagem silencioso.
Márcio Heleno Soares demonstra interesse em observar os efeitos da violência para além dos confrontos explícitos. Mais do que retratar o crime organizado, o filme investiga como a violência infiltra-se nas relações humanas, afetando desejos, escolhas e perspectivas de futuro. Ela não aparece apenas nos momentos de explosão, mas também nos silêncios, nos olhares desconfiados e na percepção constante de que qualquer equilíbrio pode ser rompido.
Outro aspecto relevante é a forma como a juventude é retratada. Os protagonistas não são idealizados nem reduzidos a arquétipos. Eles carregam sonhos, contradições e impulsos que os tornam reconhecíveis. O filme parece interessado em mostrar indivíduos tentando construir suas próprias trajetórias em um contexto que frequentemente lhes oferece caminhos limitados. Essa tensão entre desejo de liberdade e condicionamento social constitui um dos núcleos mais fortes da narrativa.
Visualmente, Tudo que é Sólido aposta em uma atmosfera de densidade emocional. Mesmo quando a ação desacelera, permanece a sensação de inquietação. O espectador percebe que existe algo prestes a ruir, como se a narrativa fosse atravessada por uma instabilidade permanente. Essa escolha estética reforça a coerência temática da obra e contribui para que a experiência ultrapasse os limites de um drama criminal convencional.
A trama revela as injustiças e a violência como um elemento propulsor das relações de poder no interior de MInas Gerais. Pra quem imagina que a violÊncia ocorre apenas nos grandes centros urbanos se surpreenderá com a narrativa brutal dessa obra disruptiva.
Ao final, o filme deixa uma pergunta que ecoa para além da ficção: o que realmente permanece de pé em uma sociedade marcada por desigualdades, violência e disputas de poder? A vida insisite em pulsar, mesmo em mundo caótico e brutal, afinal de contas nem mesmo a solidez do sofrimento é permanente. Tudo que é sólido não oferece uma resposta. Em vez disso, Márcio Heleno Soares constrói uma narrativa que convida à reflexão sobre a fragilidade das estruturas que organizam a vida. Assim, Tudo que é Sólido encontra sua força justamente naquilo que parece contraditório.
Na premiere os espectadores viveram um catarse que ocorre apenas quando a arte revela a vida e a morte como mecanismo de uma mesma lógica.
Leandro Martins
Oitivas: Entre a Mobilização e a Conscientização para Fortalecer a Cultura Regional
Há aproximadamente três anos, o interior do leste de Minas Gerais, especialmente nas cidades de Caratinga e Governador Valadares, foi palco de uma série de audiências que buscavam fortalecer a produção audiovisual na região. Organizadas por coletivos culturais, produtores locais e representantes do poder público, as reuniões tiveram como objetivo principal ouvir artistas, cineastas, produtores e demais profissionais da área para discutir as necessidades e os desafios enfrentados pelo setor.
As audiências possibilitaram um espaço de diálogo aberto sobre os obstáculos que o audiovisual mineiro enfrenta, como a falta de infraestrutura, escassez de financiamentos e pouca visibilidade para as produções locais. Além disso, os encontros trouxeram à tona o potencial criativo da região e as oportunidades para o desenvolvimento de um circuito audiovisual independente. Caratinga, com sua rica tradição artística, e Governador Valadares, uma cidade em crescimento acelerado, foram vistas como polos em potencial para impulsionar a economia criativa na área do audiovisual, entretanto, Valadares continua ainda com "alguns passos atrás" para uma mudança de mentalidade, e até mesmo, uma transformação cultural, para aceitar, ou melhor, acolher "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", como dizia Glauber Rocha, ou seja, acolher a produção cinematográfica.
Sou morador de Governador Valadares desde 1996, nasci em São Paulo, morei em Ipatinga, na roça, depois em Caratinga, Belo Horizonte, Portugal e retornei para GV em 2006, onde resido até hoje. Falo com propriedade, enquanto morador e como produtor de cultura que participou de algumas audiências em GV, sobre a tristeza que senti ao debater e defender exaustivamente as produções de curta-metragens e longa-metragem para GV, e ter que ouvir um colega dizer: "Valadares não tem condições de produzir um curta-metragem, quiçá um longa-metragem, e ninguém aqui vai ficar esperando um salvador da pátria produzir um longa-metragem com a promessa de dar emprego para todo mundo". Eu simplesmente respondi: "Pois bem, sou aqui uma voz no deserto, que luta sim pela produção cinematográfica de Valadares, mas se não vamos produzir cinema aqui, então vamos assistir Caratinga produzir, porque com certeza, produzirão um longa-metragem".
Nesse momento, minha fala estava cheia de revolta, tristeza, desilusão, mas, sobretudo, muito consciente e soava, ironicamente, como uma profecia sobre minhas palavras de que GV assistiria Caratinga produzir um longa-metragem. Pois há mais de 15 anos tenho feito parte das produções cinematográficas de Caratinga, onde hoje sou membro do Coletivo Arte Cine, estou produzindo meu primeiro documentário "O Cão do Leste: um filósofo da resistência", sou roteirista juntamente com Leandro Martins e Júlio Art e assistente de direção do curta-metragem "Nostalgia", e assistente de direção do maior longa-metragem que será produzido no interior do leste de Minas, o filme "Tudo que é Sólido" de Márcio Heleno Soares. Esse pequeno currículo demonstra e sustenta minha fala de desilusão com GV, por não ter sido acolhido as propostas de produção audiovisual, e por ter zombado dessa possibilidade tão real, já que GV foi contemplado pela lei Paulo Gustavo com um orçamento muito superior a Caratinga, e no entanto, não terá nenhuma produção cinematográfica de expressividade que se compare com Caratinga.
Meu caro leitor, não é minha intenção aqui criar um duelo entre Caratinga e Valadares, mas convenhamos, Valadares tem tudo para avançar nas produções cinematográficas, mas simplesmente falta mudança de mentalidade, transformação cultural e conscientização. Enquanto Valadares se coloca no lugar de assistir à produção de outras cidades, Caratinga avança com força, marca a história ao trazer efetivamente a maior produção cinematográfica de todos os tempos para o interior de Minas Gerais, com o filme "Tudo que é Sólido", com a participação de vários atores renomados que já atuaram na rede Globo e que estão nos streamings com a Netflix. Alguns nomes conhecidos são: Humberto Martins, MC Kant que atuou na série "Sintonia", Erick Maximiano que atuou nos filmes como "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite", Adriana Rabelo e Russo que atuaram no filme "Bacurau", enfim, já deu para perceber que trata-se de uma grande produção.
Contudo, essas audiências deram voz às necessidades do interior mineiro, chamando atenção para o talento e a originalidade dos profissionais da região. Três anos após esses encontros, algumas conquistas já podem ser vistas, com novos projetos em fase de produção e uma maior presença de produções de Minas Gerais em festivais e circuitos culturais. Contudo, os desafios de consolidar um polo audiovisual forte e autossustentável permanecem, sendo essencial que as autoridades e o setor privado sigam apoiando essa iniciativa.
O Legado de um ícone da Cultura
No último sábado (06/04/2024), perdemos um dos grandes ícones de nossa cidade de Caratinga: o cartunista Ziraldo. Sua partida deixou um vazio não apenas na cultura local, mas em todo o país. Ziraldo, desenhista e escritor, nasceu em Caratinga, Minas Gerais, onde passou toda a sua infância antes de partir para o Rio de Janeiro, onde veio a falecer, dormindo em seu apartamento.
Caratinga, com seus pouco mais de 87 mil habitantes, tem o privilégio de contar com dois locais que homenageiam esse ilustre filho da terra. Na entrada da cidade, ergue-se uma estátua do "Menino Maluquinho", um dos personagens mais emblemáticos de Ziraldo. O monumento, inaugurado em 2004, no trevo da BR-116, é um ponto de referência que atrai turistas de todo o país. Durante a pandemia da Covid-19, até mesmo a estátua recebeu uma máscara gigante, incentivando o uso da proteção.
Além da estátua, em 2009 foi inaugurada a Casa Ziraldo de Cultura, outro espaço dedicado à memória do cartunista. Idealizada pelo cartunista e produtor cultural Élcio Danilo Russo Amorim, conhecido como Edra, a Casa Ziraldo de Cultura tem como propósito celebrar a relação afetiva de Ziraldo com Caratinga e seus conterrâneos. É um local multifacetado, destinado a exposições, lançamentos de livros, palestras, cursos e reuniões, além de abrigar uma gibiteca da "Turma do Pererê", série de histórias em quadrinhos criada pelo próprio Ziraldo.
Ziraldo sempre manteve uma ligação especial com sua cidade natal, mesmo após tantos anos fora. Sua relação de proximidade com Caratinga era notável, demonstrando um amor incondicional pela terra onde passou sua infância.
A Prefeitura de Caratinga lamentou profundamente a perda de Ziraldo, ressaltando sua genialidade e suas contribuições para a cultura brasileira, que continuarão a brilhar. A estátua do Menino Maluquinho e a Casa de Cultura são locais emblemáticos que perpetuam a memória desse renomado cartunista e escritor, mantendo viva sua influência e inspiração para as futuras gerações.
Neste momento de despedida, é importante celebrarmos não apenas o legado artístico de Ziraldo, mas também o vínculo afetivo que ele manteve com sua cidade natal. Que sua memória continue a inspirar e encantar a todos nós, em Caratinga e além dela.
Ton Silva - Ator e diretor